Dossiê Temático

v. 27 n. 2 (jul/dez - 2014): Arquivos e esporte

Esportes e arquivos: um panorama internacional do debate

Enviado
8 julho 2015
Publicado
24-09-2014

Resumo

Resumo

Este artigo tem o objetivo de fornecer um panorama do debate internacional – ou melhor, da ausência de tal debate – em torno de questões relacionadas à preservação de arquivos de esporte. Também apresenta os objetivos e os esforços adotados pela Seção de Arquivos de Esporte no âmbito do Conselho Internacional de Arquivos, ao iniciar e promover um diálogo sobre essa importante questão.

Palavras-chaves: conscientização; arquivos de esporte; história do esporte; debate.



This presentation intends to give an overview of the international debate – or rather perhaps the lack of such a debate – around issues related to the safeguarding of sports archives. It also presents aims and efforts taken by the Section on Sports Archives within the International Council on Archives in introducing and promote such a dialogue on this important issue.

Keywords: awareness; sports archives; history of sport; debate.

 

Resumen

Esta presentación tiene como objetivo fornecer un panorama internacional del debate – o mejor, sobre la carencia de tal debate – en torno de cuestiones relativas a la preservación de archivos de deportes. El también presenta las metas y los esfuerzos adoptados por Sección de Archivos de Deportes en el interior de lo Consejo Internacional de Archivos, en presentar y promover un diálogo en esta materia tan importante.

Palabras clave: concientización; archivos de deportes; historia del deporte; debate.

 

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Ao aceitar a tarefa de escrever um artigo com este título, eu não percebi imediatamente o quão desafiador ele se mostraria. A razão, falando francamente e sendo levemente provocativo, é que não há realmente um debate digno de nota sobre o qual eu possa apresentar um panorama. Abordando o tema dessa forma, posso apenas esperar que alguém se sinta ao menos um pouco provocado, assim como eu fiquei no início da década de 1990, quando trabalhava nos Arquivos de Esporte da Finlândia.

Naquele momento, eu li um artigo em um boletim australiano, alegando que o esporte se situava em uma obscuridade arquivística. Como um jovem arquivista, trabalhando em um dos poucos arquivos especializados em esporte no mundo, e também dedicado à pesquisa da história do esporte, julguei necessário reagir àquela declaração. Consequentemente, iniciei um debate sobre esse tema, ainda que em um fórum totalmente diferente, enfatizando que o esporte poderia também ser visto como uma obscuridade acadêmica, e que os pesquisadores do esporte – seja na história, sociologia ou qualquer outra disciplina – deveriam ser considerados responsáveis por aprimorar a preservação dos arquivos de esporte. Naquela ocasião, recorri a três “métodos” para melhorar a situação: iniciar e sustentar um diálogo entre historiadores do esporte e arquivistas, para melhor capacitar os arquivistas como atores chave em projetos nacionais de história do esporte; dar destaque a apresentações sobre arquivos de esporte tanto em reuniões de história do esporte como em congressos de arquivologia; e buscar disseminar essas ideias por vários canais, publicando textos, apresentando ensaios durante conferências internacionais e tentando criar redes internacionais relacionadas à questão dos arquivos de esporte.

Contudo, pouquíssimos debates, se é que houve algum, foram iniciados, e raramente algum pesquisador ou profissional da arquivologia demonstrou disposição para se dedicar à preservação dos arquivos de esporte. No âmbito do Conselho Internacional de Arquivos (CIA) alguns esforços foram adotados durante a década de 1990, com a finalidade de iniciar algum tipo de cooperação. Antes do Congresso do CIA, de Beijing, em 1996, foram reunidas informações sobre coleções e instituições de documentos de esporte ao redor do mundo, com a ideia de se criar algum tipo de registro ou diretório que pudesse ajudar pesquisadores a localizar materiais de interesse. Mesmo esse projeto não levou a qualquer resultado concreto e os esforços para iniciar uma seção especial, comitê, grupo de trabalho ou outro organismo no interior do CIA, sobre arquivos de esporte e arquivos olímpicos, não obtiveram sucesso. Por essa razão, esforços foram adotados no início da década de 2000 para criar uma rede no interior da International Association of Sports Information (IASI), infelizmente sem maior sucesso, já que os especialistas em informação de esportes não demonstraram maior interesse do que os pesquisadores e arquivistas.

Em 2003, no entanto, ocorreu uma espécie de divisor de águas. Em primeiro lugar, o Comitê Executivo do CIA concordou, em princípio, com a criação de uma seção de arquivos de esporte. Com isso, em 2004, um grupo diretor iniciou os preparativos para a inauguração de uma seção provisória, o que ocorreu durante o Congresso do CIA, em Viena, nesse ano. Eu tive a honra de ser convidado para compor o grupo diretor, posteriormente denominado Birô, e, assim, poder participar da promoção da causa dos arquivos de esporte. A Seção de Arquivos de Esporte [Section on Sports Archives (SPO)] foi aceita pela Assembleia Geral Anual do CIA durante o Congresso de Viena, em agosto de 2004, conferindo, assim, certa credibilidade oficial às atividades de conscientização sobre a necessidade de preservação de arquivos de esporte.

A recém-inaugurada seção logo começou a agir de acordo com as metas estabeleci-das em seu primeiro “plano de trabalho”. Uma das metas centrais era organizar seminários e workshops sobre arquivos de esporte, durante os quais poderiam ser iniciados debates sobre a importância da preservação de arquivos de esporte. O primeiro evento desse tipo foi realizado em 2005, em Paris e Roubaix, organizado em conjunto pela SPO e pelo Instituto Francês para a Pesquisa Política (Sciences Po). O seminário foi intitulado “Esportes: dos Arquivos para a História”, mas pode ser questionado se o evento causou um verdadeiro debate ou não. Pelo menos ele resultou em um relatório, o primeiro desse tipo que a SPO realmente esteve envolvida.

Desde o início de minha carreira como membro do Birô da SPO, e efetivamente como um dos dois vice-presidentes desde 2004, assumi a responsabilidade de elevar a conscientização sobre as questões relacionadas aos arquivos de esporte entre as organizações internacionais que lidam com pesquisas da história do esporte – especialmente a International Society for the History of Physical Education and Sport (ISHPES) e o European Committee for Sport History (CESH). A ideia era realizar sessões especiais sobre história do esporte durante seminários e congressos promovidos por essas organizações, com o objetivo de tornar os pesquisadores da história do esporte cientes que mesmo eles deveriam ter alguma responsabilidade em convencer as organizações esportivas a cuidarem melhor de seus arquivos.

Durante os primeiros anos das atividades da SPO, tais sessões eram organizadas quase anualmente, começando pelo Congresso do CESH em Sevilha, em novembro de 2005. Esse Congresso teve como tema geral “Esporte e violência” e eu consegui convencer os organizadores a permitir ao menos duas sessões de natureza distinta. Uma dessas sessões foi uma mesa-redonda intitulada “Violência nos arquivos de esporte”, que contou com especialistas na área. Algumas das comunicações foram posteriormente publicadas nos anais do Congresso. Minha contribuição a essa sessão se deu mais a título de introdução, apontando vários tipos de ações violentas ou incidentes – intencionais ou não intencionais – que poderiam causar danos a materiais arquivísticos.

Outras sessões da mesma natureza foram realizadas durante o Congresso da ISHPES, em Copenhagen, em 2007, e em Tartu (Estônia), em 2008, assim como no Congresso da CESH, em Pisa, em 2009. As pessoas que assistiram às sessões, que frequentemente incluíam comunicações muito interessantes e provocativas à reflexão, foram bastante participativas, mas isso muito raramente resultou em um debate ativo em torno de questões relacionadas aos arquivos de esporte, nem durante as próprias sessões, nem posteriormente, em alguma publicação ou fórum de discussão. Poucas comunicações terminaram sendo publicadas nos anais do Congresso.

Em 2007, ocorreram dois importantes eventos em que a SPO esteve ativamente envolvida e tentou produzir um impacto efetivo sobre o futuro da documentação esportiva. Um deles pode ser visto como um sucesso, o outro não muito. Contudo, a falta de sucesso no último caso talvez não tenha sido tanto em virtude da SPO quanto de fatores externos.

Em maio de 2007, a SPO e a Associação Italiana de Arquivistas (ANAI) organizaram um seminário conjunto intitulado “Esportes de inverno e de montanha: uma memória em risco”. A necessidade de tal seminário se originou de uma preocupação entre os pesquisadores de esporte e arquivistas italianos sobre como a documentação dos esportes de inverno, em geral, e da Olímpiada de Inverno em Turim, de 2006, em particular, eram geridos na Itália. Foi pensado, portanto, que um seminário internacional contando com especialistas na área de documentação e história poderia ajudar a aumentar o entendimento do valor da documentação. Posteriormente, foi relatado à SPO que pelo menos a documentação dos Jogos de Turim estava em segurança, o que pode ser visto como um efeito positivo derivado do seminário.

Em outubro de 2007, a Comissão Europeia publicou o que eles chamam de o Livro Branco sobre Esporte da União Europeia (EU White Paper on Sport), e também organizou uma conferência em Bruxelas onde o documento foi apresentado. O Livro Branco incluiu muito pouco, se é que incluiu algo, sobre questões de documentação esportiva enquanto importantes fenômenos e atividades que se esperava que fossem. Anteriormente, nesse mesmo ano, a SPO e a CESH haviam enviado uma petição conjunta à União Europeia sobre a preservação de arquivos de esporte, e a SPO também esteve representada na Conferência de Bruxelas. Nenhuma reação da União Europeia foi sequer ouvida a respeito da petição. Assim, aparentemente, a questão dos arquivos de esporte não era de particular interesse dos tomadores de decisão europeus naquele momento, nem mesmo daqueles na Comissão de Esporte.

Tendo trabalhado ativamente durante um período de quatro anos e recrutado membros em todo o mundo, a SPO estava preparada para se tornar uma Seção permanente no âmbito do CIA. Esse status foi aprovado pela Assembleia Geral Anual durante o Congresso de Kuala Lumpur, em 2008. Após isso, a SPO estabeleceu novas metas para os anos seguintes. Uma dessas metas foi publicar uma edição especial relacionada a arquivos de esporte, na Comma, a revista do CIA. Durante o Congresso de Kuala Lumpur, um comitê editorial foi eleito e começou o trabalho de planejar o conteúdo e de convidar autores de áreas tão variadas quanto possível. Essa foi a contribuição da SPO para um debate internacional. Da mesma forma, a edição temática foi vista como um meio de conscientização sobre arquivos de esportes, ao publicar artigos que tratam de questões relativas a arquivos de esporte e também ao apresentar vários tipos de instituições e acervos. A edição “Arquivos de esporte” (Comma 2009/2) foi finalmente publicada em 2011, incluindo artigos da Finlândia, no norte, ao Senegal, no sul, e de Beijing, no leste, a Michigan, no oeste. Se essa publicação da SPO gerou debates concretos ou não, é algo difícil de avaliar, porque – como mencionado no início deste artigo – dificilmente há um verdadeiro debate sobre o qual falar.

Um dos raros debates em torno de matérias relativas a arquivos de esporte que eu tomei conhecimento nos últimos anos foi publicado no periódico britânico Sport in History, em 2006-2007, em que dois acadêmicos iniciaram um debate igualmente importante e estimulante, mas que infelizmente terminou, podemos dizer, antes de realmente obter algum progresso. Embora os autores possam ser criticados por algum erro de interpretação, os artigos claramente demonstram a necessidade de um diálogo entre pesquisadores e arquivistas sobre os princípios de arquivamento e as responsabilidades – e possibilidades – dos pesquisadores. Lamentavelmente, tomei conhecimento desse diálogo tarde demais para dele participar com alguma contribuição significativa. Ou, quem sabe, talvez ainda faça sentido reabrir a discussão.

Esse caso talvez possa ser visto como a expressão de um debate, ou meramente como uma crescente compreensão da importância do esporte como um fenômeno na sociedade, o que nos últimos anos tem feito com que vários países publiquem edições especiais sobre os esportes em um grande número de periódicos relacionados a arquivos e bibliotecas. Apenas para mencionar algumas, em 2008, o periódico de arquivos e bibliotecas belgas publicou sua edição “Les archives du sport/Het sportarchief”; em 2009, o periódico suíço Arbido, para arquivistas e bibliotecários, publicou uma edição sobre “Informationseinrichtungen und Sport/Services d’information et sport/ Servizi d’informazione e sport”; em 2011, a já mencionada edição da Comma sobre arquivos de esporte; e, muito recentemente, o Arquivo Nacional da Suécia dedicou seu anuário ao tema “Esporte nos arquivos”. Nessa última publicação, o ex-professor de história do esporte Jan Lindroth descreve o desenvolvimento histórico dos arquivos de esporte na Suécia, contudo com um foco estritamente sueco. E, por fim, mas não menos importante, agora também a revista do Arquivo Nacional do Brasil, Acervo, dedica uma edição ao tema “Esporte e arquivo”, pelo menos devido a dois grandes eventos: a Copa do Mundo FIFA 2014, no Brasil, e os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro em 2016.

Tradução de Luiz Salgado Neto
Revisão de tradução de José Claudio Mattar

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Recebido em 18/7/2014
Aprovado em 28/7/2014

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